Deixar de viver no futuro

Simplesmente fartei me de viver no futuro. Descobri que pensar no futuro me destruía. Passava o tempo a pensar no que é que ia ser de mim, como iria ser a minha vida, o que é que eu ia ter, onde eu iria estar daqui a não sei quantos anos, que dinheiro teria ter, a vida que eu iria levar, qual seria a minha carreira…eu sei lá.

Tudo isso fazia com que o que eu tinha passado ou o que eu tinha agora não importasse para nada, era como se nada importasse a não ser o futuro. Era frustrante cada vez que eu olhava para o futuro, via o tempo passar e não acontecia nada, só aos outros. Acordava angustiada e irritada por estar sempre tudo na mesma, passava o dia a pensar o que podia fazer para chegar onde eu queria, e adormecia chateada comigo, com os outros e com o mundo por nada estar a acontecer. Era como se andasse o dia todo adormecida num sonho, numa vida que não existia mas que eu queria a todo o custo ter. Culpava tudo e todos, menos a mim, claro.

Ocupava os meus dias a ver televisão, a navegar nas redes sociais, a trabalhar, a culpar o mundo, e não parava um minuto para pensar. Parar e simplesmente não fazer nada. Acho que já não sabia o que era “não fazer nada”. Era aborrecido e para mim era perder tempo parar para pensar na vida. Só ouvia dizer para não pensar na vida que fazia mal. Achava mesmo que não valia a pena, e tentava ocupar sempre o meu tempo a fazer o que pudesse para me distrair do silêncio. Não sabia o que fazer com ele.

Acabei por perceber que só eu posso mudar a minha vida, eu sou responsável por tudo o que me acontece, e não os outros ou o mundo. Tudo depende de mim e preciso de fazer alguma coisa por mim. Parei de culpar os outros pela minha infelicidade ou por nunca conseguir o que queria. Afinal eu andava a dormir por esta vida, a deixar me levar pelo que acontecia…talvez alguém me agarrasse e tomasse conta da minha vida. Como eu estava errada. Estava tão obcecada numa vida que supostamente queria a todo o custo e não conseguia, que nem sequer pensei que se calhar não era essa a vida que eu realmente queria. Só queria agradar a toda a gente e ser a melhor em tudo, o que me prejudicou em tudo. Não conseguia dizer não em muitas coisas só para agradar, punha me a maior parte das vezes em último lugar, achando que era o melhor para mim. Mas como? Porquê? Falta de amor próprio.

Estava completamente obcecada no que corria mal, no que eu não conseguia alcançar. Esqueci me de mim, não parava um segundo no meu dia para pensar mais fundo sobre mim.

Viver no futuro acabou comigo, física e psicologicamente. A ansiedade e o stress destruíram me completamente. A ansiedade do “amanhã”. Acho que nunca me apercebi realmente que o “amanhã” poderia nem sequer existir, e eu estava ali, a desperdiçar o meu dia, o meu “agora” que era tudo o que eu tinha, por um “amanhã”, que não existia, só na minha cabeça.

Agora, luto todos os dias para permanecer no Agora, não é fácil, nada fácil, mas pelo menos tento, porque sei que amanhã, posso não estar aqui.